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Saber como construir uma Civilização que promova a Felicidade de todos
Saber como construir uma Civilização que promova a Felicidade de todos
Vamos agora para o quarto pilar de uma educação para a paz. Vamos falar de valorizar e estimular progressos nas atitudes e no comportamento verbal e não verbal da criança.
Falo de "progressos" e não de resultados porque estes nem sempre são os que esperaríamos, nem muitas vezes são imediatos. Os progressos, sim, esses vão-se desenvolvendo ao longo do tempo e, portanto, dão muito mais oportunidades de elogiar a criança e de a encorajar no caminho certo.
Como podemos fazer isto?
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A ausência de elogios tem várias consequências pouco positivas.
Tenhamos em atenção que um comportamento menos bom ou de resistência relacionado com o desempenho escolar por parte da criança pode sinalizar
É preciso despistar estas possibilidades, antes de pensarmos em criticá-la e condená-la (e muito menos de castigá-la!).
Antes de terminar o tema de como educar para a paz, gostaria de esclarecer que, evidentemente, a disciplina sem violência poderá ser imperfeita (há poucas coisas perfeitas no nosso mundo) – só que também é verdade que, com violência, é pior.
Com as crianças, hoje em dia, temos de escolher ou fazer coisas possivelmente ineficazes, ou fazer coisas decididamente criminosas. Bater numa criança é legalmente um crime, mas há outras coisas que, embora não haja lei que as proíba, são também crimes. Devemos evitar fazê-las. Falámos delas ao longo destes meses, mas, genericamente, podemos incluir tudo o que lhe cause um sofrimento físico ou mental que está na nossa mão impedir, sem que daí advenha um prejuízo para ela.
Mas têm os Educadores e os Cuidadores de ser perfeitos? Não. Nem o devem ser.
Por exemplo, os pais não devem responder sem falhar a todas as necessidades da criança, senão ela também não cresce (não aprende a lidar com dificuldades, a ultrapassá-las, etc.). A única necessidade cuja satisfação não deve ser nunca negada é a do AMOR.
Por isso, uma mãe ou um pai só precisam de ser suficientemente bons. A imperfeição é humana. As crianças preferem-na.
Até porque pais perfeitos constituem uma carga suplementar de culpabilização para os filhos durante toda a sua vida (devido a nunca conseguirem igualar a perfeição dos pais).
Em resumo, os 4 pilares de uma educação para a paz são:
Gostaria de pedir a todos que, para a próxima aula, trouxessem uma pergunta que desejassem ver tratada nas próximas semanas. Que esteja mais ou menos dentro do âmbito da Psicologia, de preferência. Uma pergunta que vos seja realmente importante e premente.
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Obrigado e uma ótima semana para tod@s!
Vamos continuar com o que, sobre o castigo corporal, muita gente acredita:
9. O castigo corporal ensina uma criança a respeitar os outros. (ensina a ter medo, sim; a ter respeito, não)
10. O castigo corporal deve ser usado para disciplinar uma criança de cada vez que ela se comporta mal.
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11. Os pais têm o dever de correção e, se for preciso bater, bate-se. (os pais têm o dever de correção, mas não têm o direito de cometer o crime de bater)
12. Os castigos corporais são sempre dados por amor e para segurança da criança. (não é verdade: o que a investigação demonstra é que os castigos corporais são aplicados porque os pais perderam a paciência)
13. As crianças esquecem com facilidade e recuperam bem de tudo o que de mal lhes façamos. (não é verdade: nem esquecem com facilidade, nem recuperam bem do mal que lhes fazem - aliás, se isto fosse verdadeiro, então bater para quê, se elas esquecem com facilidade?)
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A encerrar este tema dos castigos corporais, aqui ficam alguns alertas do Instituto de Apoio à Criança:
📞 LINHA SOS CRIANÇA - 116 111
Uma equipa técnica especializada nos problemas que afetam as crianças e os jovens está deste lado para ouvir, acompanhar, ajudar, proteger e informar! 💙
Outros contactos disponíveis:
WhatsApp – 966 065 750 / 966 065 767 / 913 069 404
Chat online - www.iacrianca.pt
Email – soscrianca@iacrianca.pt
Linha SOS Criança Desaparecida - 116 000.
Para terminar este capítulo sobre o Estabelecimento de Limites e de como o fazer, lembro que só nos detivemos nos castigos corporais. Infelizmente, na nossa sociedade, as crianças são sujeitas ainda a muitos outros tipos de violência. Como, por exemplo, abuso sexual, abuso laboral, negligência e violência psicológica (da qual a violência verbal é apenas uma das suas várias componentes).
A luta para que as crianças sejam tratadas e educadas com a mesma justiça e a mesma humanidade que os adultos exigem para si mesmos ainda vai muito no princípio.
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Uma ótima semana e obrigado pela participação de tod@s!
Vamos fazer uma reflexão final sobre Castigos Corporais, no sentido de percebermos melhor as pessoas que os defendem e de sermos capazes de as convencer a mudar de opinião.
Sabemos que praticamente todos os adultos concordam publicamente com o respeito pelos Direitos da Criança.
Mas, na prática, às ocultas de olhares estranhos, muitos adultos contradizem esse respeito com o seu comportamento violento em relação às crianças. Quantos serão?
Nos E.U.A.,
(…), an ongoing national survey from the University of Chicago reveals that support for the statement, “It is sometimes necessary to discipline a child with a good, hard spanking” was 83% in 1986, dropping to 72% in 1996 and 2006 and, most recently, remaining in the majority at 68% in 2016. (David Rettew, Parenting Made Complicated, Oxford University Press 2021, p.167/8)
Dados da Sociedade Internacional de Prevenção ao Abuso e à Negligência na Infância (Sipani) de São Paulo revelam que, em média, 18 mil crianças são vítimas de violência doméstica por dia, no Brasil; e nos últimos meses de pandemia, esses números possivelmente aumentaram, porém não estão sendo contabilizados.
De acordo com o estudo "Será que uma palmada resolve", do Instituto de Apoio à Criança (IAC), realizado com base em inquéritos online a 1.943 pessoas voluntárias, 30% dos pais consideram aceitável usar castigos corporais em crianças, sobretudo quando desobedecem aos pais, são "malcriadas" ou não cumprem com as regras da família.
Não há dúvida: em Portugal, os castigos corporais continuam a ser uma realidade! Apesar de serem puníveis por lei. Porém, a lei muitas vezes não é cumprida pelas pessoas, nem aplicada consistentemente pelos tribunais, como já vimos numa aula anterior. E pais, familiares e outros cuidadores continuam a bater.
Para responder àquela pergunta, vamos usar o estudo aqui referido.
Primeiro, os investigadores consideram Castigo Corporal como uso da força física com a intenção de causar dor à criança, mas não lesões nem ferimentos, com o objetivo de corrigir ou controlar o comportamento da criança.
Assim, sobre o castigo corporal, muita gente acredita que:
Efetivamente, esta crença nasce de uma ligação de causa e consequência que, pura e simplesmente não existe. Dar mimo, isto é, amor em abundância, não tem nada a ver com ela ficar sem limites e regras. Aliás, um amor verdadeiro, que não seja apenas uma manifestação de um sentimentalismo barato, implica que se estabeleçam limites e regras ao que a criança pode fazer, a fim de garantir a sua segurança e o seu bem-estar, bem como os de todos os outros que convivam com ela.
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Ao longo da aula, foram referidas vários fatores que concorrem para haver pessoas que continuam a agredir com violência os seus filhos. Eis as contribuições dos presentes:
Note-se ainda que o ser humano é muito complexo e não encaixa em nenhuma teoria, pelo que aqui não se fala de causas, mas apenas de condições que facilitam o eclodir da violência. E que continuam a alimentar aquelas crenças.
Continuaremos na próxima aula. Uma ótima semana para tod@s!
Na aula passada, vimos que, sob o ponto de vista ético, punir fisicamente uma criança é inaceitável porque reprovamos tal medida quando aplicada aos adultos.
Mas uma segunda razão é que são ilimitadas:
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Em suma, porque batemos numa criança?
Porque o sistema de ameaça fica ativado e produz emoções negativas. O organismo percebe que o outro (criança) é mais fraco e opta pela “luta”. Porque, se percebesse que o outro era mais forte, engolia a zanga e fugia ou paralisava ou submetia-se (por isso, deixamos de bater no rapaz quando ele começa a ficar do nosso tamanho). Não é bonito. Nem ético.
Além de tudo o mais, anotemos que, desde 2007, os castigos corporais são proibidos pela lei penal portuguesa!
O Código Penal Português [artigos 152º (Violência doméstica) e 152º-A (Maus tratos)] tipifica os maus tratos físicos ou psíquicos, incluindo castigos corporais de crianças pelos educadores, como crimes de violência doméstica e de maus tratos. O agente é punido com pena de prisão de um a cinco anos, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal, podendo ainda o agente ser inibido do exercício do poder paternal.
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Vejamos um exemplo para refletir (notícia do Público de 1-2-2023):
Tribunal da Relação absolve pai que esbofeteou o filho: “Foi um castigo leve e proporcional”
Acórdão assinado pelo juiz Carlos Coutinho diz que “punição foi legítima, porque o arguido é o pai do ofendido e agiu com a intenção de o corrigir”
O rapaz de 13 anos combinara apanhar o autocarro no final das aulas. O pai esperou, telefonou – uma, duas, três, quatro, “20 vezes”. Avisou a ex-mulher que ia alertar as autoridades. O rapaz deu sinal de vida. Estava a jogar futebol, num campo adjacente à escola. Tinha o telemóvel em silêncio. O pai precipitou-se para lá e, à frente dos colegas, deu-lhe uma bofetada.
Duas perguntas apenas:
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Na próxima semana, iremos continuar a refletir sobre este tema.
Até lá, uma ótima semana para tod@s!
Saiu esta semana o Ranking da Felicidade baseado na média dos três anos, de 2020 a 2022, divulgado pelo World Happiness Report 2023:
Notemos como, dentre os 10 países mais felizes, 7 são as sociais-democracias do Norte da Europa (8, se contarmos com a Suíça que também tem uma baixa desigualdade de rendimentos).
Numa aula mais atrás, falámos de como elogiar era algo de extremamente vantajoso para adultos e crianças. Por vezes, parece ser difícil encontrar o que elogiar. No entanto, lembremo-nos de que há no mundo muito mais coisas positivas do que negativas – só temos que desenvolver uma atitude descobridora dessas coisas positivas. Em particular, os aspetos e acontecimentos de vida positivos excedem os negativos; tal como acontece com as características e qualidades positivas das pessoas que excedem as negativas.
Tal como fazíamos com um exercício de que falámos no passado para a gratidão, contemos diariamente 3 coisas boas que as crianças fizeram. Depois, agradeçamo-las e celebremo-las:
Voltando à Pirâmide de Maslow:
Reparemos como, tanto para crianças como para adultos, satisfazer estas necessidades contribui para:
Para as crianças, em especial, contribui também para ensiná-las como fazê-lo de forma saudável e autónoma, quando crescerem e se tornarem independentes.
Na verdade, podemos usar esta Pirâmide como um instrumento para nos colocarmos duas interrogações:
A segunda pergunta é muito mais fácil de responder: NÂO, nenhuma daquelas necessidades é satisfeita com o recurso a castigos corporais. Logo, a conclusão necessária é que estes são usados para satisfazer as necessidades do adulto e só do adulto.
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Depois de analisada a questão do ponto de vista educacional, vamos agora considerá-la do ponto de vista ético.
Os fins justificarão os meios?
O argumento para um "sim" toma a seguinte forma:
Os meios são abomináveis ("sim, os castigos corporais são uma coisa horrível"), mas como o fim é louvável, esses meios ficam automaticamente justificados ("assim, a criança fica educada e os castigos corporais são bons e úteis").
É assim que se justificam as guerras.
Não.
Primeiro que tudo, porque reprovamos tal medida quando aplicada aos adultos (apesar de eles até serem bem mais capazes de se defenderem do que as crianças), dado ser algo de ofensivo para a sua dignidade como pessoas.
Se isto não for claro, podemos perguntar-nos que razões podem haver para defender a punição física de:
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Na próxima semana, iremos continuar a refletir sobre este tema.
Até lá, uma ótima semana para tod@s!
Acabámos a aula passada referindo que devemos evitar sempre humilhar a criança. Não só porque é o que fazemos com os adultos, mas também porque a humilhação suscita na criança uma das mais destrutivas emoções negativas (juntamente com a raiva e com a inveja): a vergonha.
Recordo que estamos a tentar encontrar uma educação que não transforme crianças em adultos violentos. Por exemplo, que evite isto - Jornal de Notícias, 14.02.2022:
“Em 2022, a PSP e a GNR receberam um total de 3530 queixas de violência no namoro, o que corresponde a uma média de cerca de dez situações reportadas por dia.”
Ou ainda isto:
Há muitas causas para este panorama de crescente violência sobre as crianças, mas há uma que é ela própria uma violência sobre elas (Jornal de Notícias, 24.01.2023):
«Em Gaia existem 4492 crianças em situação de pobreza extrema, afirmou a ministra do Trabalho e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho (...) sublinhando que a nível nacional o número ascende às "170 mil".»
Saliento que não é pobreza simplesmente, é «pobreza extrema».
Primeiro, pelo sofrimento que isto lhes causa. Segundo, porque a criança apresenta desvantagens imensas em relação ao adulto (que abusa delas muitas vezes):
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Recordemos que, muitas vezes, a última esperança de salvação destas crianças está:
Elogiar TODOS (CRIANÇAS E ADULTOS) o mais possível e sempre que possível,
Que propostas tem a ciência para educar as crianças sem precisarmos de recorrer a maus-tratos?
Obrigado pela participação de tod@s. Uma ótima semana, com saúde e alegria!
Para além de problemas cognitivos, os castigos corporais provocam problemas emocionais, agravando os do presente, e expandindo-os no futuro: problemas de ansiedade, de depressão, de hostilidade, de instabilidade emocional e de desespero que levam algumas vezes ao suicídio ou às dependências de álcool ou drogas.
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Não ensinam as crianças a lidar com emoções difíceis, a não ser pela sua repressão. Que, se for levada ao extremo, acaba na anorexia, na automutilação ou mesmo no suicídio.
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Promovem baixos amor-próprio e autoestima.
Lembremo-nos de como nos sentimos humilhados sempre que fomos vítimas de violência física, tanto na infância como na idade adulta.
O amor-próprio existe quando reconhecemos que temos valor como seres humanos, independentemente do que fazemos ou do que conseguimos. A autoestima é o que pensamos e sentimos de nós próprios a partir das nossas realizações no mundo.
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Aumentam a probabilidade de, em idades posteriores, se aceitar ser vítima passiva de variados tipos de abusos físicos e psicológicos.
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Aumentam a probabilidade de, em adulto, reagir com violência com os seus próprios filhos, companheiro/a e pais.
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Levam a que a criança assim castigada adquira um sentido moral distorcido e antissocial. Pelo que trazem à criança dificuldades acrescidas de adaptação social na escola, no clube, no grupo de amigos, etc.
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Promovem nela uma maior propensão para acidentes, bem como para a adoção de hábitos prejudiciais, como fumar ou beber.
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Tudo o que aqui se registou de mau sobre os castigos corporais ainda se torna pior em crianças que, temperamentalmente, são mais ansiosas ou zangadiças, ou ambas.
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Mas a ciência há de ter descoberto alguns benefícios de se usarem os castigos corporais, ou não?
Não.
“Apenas um único estudo de 1981 com 24 crianças mostrou melhoria estatisticamente significativa, a curto prazo, na obediência, em comparação com estratégias alternativas - time-out e um grupo de controle” (isto é, não fazer nada).
No entanto, este estudo, por melhor que tivesse sido realizado, apresenta muitas limitações.
Primeiro, porque analisa apenas 24 crianças. É pouco, muito pouco para se poderem fazer generalizações minimamente interessantes.
Segundo, só mostrou melhorias a curto prazo, o que vem confirmar estudos posteriores que referem a pouca eficácia dos castigos corporais a longo prazo.
Terceiro, só se debruçou sobre a obediência, o que me parece pobre como objetivo de uma educação de crianças.
Quarto, só comparou com a técnica do time-out e com não fazer nada. Não se comparou, por exemplo, com ouvir e conversar com a criança, algo que seria muito mais interessante de saber qual a diferença entre os dois métodos.
Portanto, apesar de ser o único estudo em décadas que mostra alguma vantagem nos castigos corporais, acaba por confirmar a pobreza de resultados deste tipo de educação.
Em suma, até ao momento, não existe nenhuma outra investigação que tenha descoberto que os castigos corporais trazem o que quer que seja de positivo.
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Qual a razão profunda para os castigos corporais terem tão maus efeitos na criança?
Sobreativam o Sistema Focado na Ameaça, no Perigo e na Autoproteção, sistema neuronal que tem como função procurar proteger a criança (e as pessoas em geral) da dor e das ameaças.
Este Sistema dá origem a respostas muito básicas, e inadequadas a maior parte das vezes. Já sabemos quais: luta, fuga, submissão, paralisação e dissociação.
Ora, a criança, pelo seu tamanho e pela sua fragilidade face ao adulto, não tem as opções de lutar nem de fugir. Assim, só lhe resta a submissão, a paralisação e a dissociação. Se estas respostas se tornam num hábito pela prática continuada de castigos corporais, a aprendizagem que ela faz para a vida não é minimamente positiva (isto é, se não tivermos um ideal para ela de um futuro adulto robotizado e neurótico). Além de criar um stress continuado do organismo.
A ativação deste sistema pode bloquear a estimulação e o desenvolvimento dos outros sistemas – e o que não se usa, perde-se (“Use it or lose it”, como dizem os anglo-saxónicos). Por exemplo, no:
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Felizmente, a ciência propõe alternativas aos castigos corporais que apresentam a vantagem adicional de estimularem estes dois últimos sistemas. Na verdade, os métodos educativos que estimulam estes sistemas constituem o cerne da chamada parentalidade positiva.
Mesmo quando se tratar de situações graves ou muito graves, devemos sempre procurar que as nossas ações estimulem o menos possível o sistema de ameaça da criança.
Recorde-se mais uma vez que qualquer tipo de comportamento crítico (por palavras ditas ou escritas, expressões não verbais ou ações) nos ativa a todos o sistema de ameaça.
Por outro lado, o que nos custa elogiar?
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Obrigado a tod@s pela excelente participação! Uma ótima semana, com saúde e alegria!
Tínhamos visto que 3 em cada 4 crianças castigadas fisicamente para deixarem de fazer algo retomavam a atividade proibida nos 10 minutos seguintes ao castigo. Uma das razões para isso acontecer é que este tipo de castigos fomenta a Reatância Psicológica.
Reflitamos também no provérbio português que nos avisa que “Não é com vinagre que se apanham moscas.” Se achamos que este ditado popular é verdadeiro, porque haveria de ser diferente com as crianças? Porque é que com as crianças o "vinagre" dos castigos corporais as atrairia para terem bons comportamentos?
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Promovem o afastamento emocional das crianças relativamente aos pais,
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Silenciam e escondem problemas pelos quais a criança esteja a passar.
Recordemos que um mau comportamento é um alerta importante para sinalizar um problema presente na vida da criança. Porquê?
Porque um mau comportamento tem as suas raízes em emoções negativas. Estas surgem quando o sistema de regulação de emoções focado na ameaça, no perigo e na autoproteção é ativado. A sua ativação resulta de uma avaliação do organismo que conclui que há qualquer coisa que está mal e que precisa de ser mudada.
Se não se enfrenta o problema de base, é pouco provável que ele desapareça. E a criança sente-se cada vez pior por isso, mas também porque as suas necessidades não foram objeto de consideração pelos adultos, agravado com o facto de ainda por cima estar a ser castigada.
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Instituem um comportamento regressivo de obediência comandado pelo medo, em vez de um comportamento moralmente autorregulado, orientado autonomamente por valores de solidariedade e de boa convivência.
Por outras palavras, a criança aprende a fazer o bem pelo medo das consequências de o não fazer. E apenas para evitar castigos, e não por ser a coisa correta para se fazer.
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Prejudicam realmente o desempenho cognitivo. Podendo, em muitos casos de maus tratos prolongados, chegar a bloquear definitivamente o seu desenvolvimento.
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Continuaremos, na próxima aula, a ver o que a ciência tem a dizer sobre os castigos corporais.
Antes disso, uma nota final.
Alguns de nós (talvez a maioria) educámos os nossos filhos essencialmente de acordo com o que sabíamos e com o que os outros nos diziam na altura. Hoje em dia, sabemos coisas que não se sabiam então. E damos conta de que, na altura, cometemos alguns erros. E, possivelmente, sentimos remorsos por isso, o que é natural.
Não devemos olhar demasiado para o passado. Aceitemos esses remorsos porque são um bom sinal de que estamos vivos, humanos e que mudámos para melhor. Usemo-los agora como uma energia positiva para fazer coisas (qualquer coisa, por mais insignificante que seja, é boa) que contribuam para melhorar o mundo, e a vida das crianças em particular.
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Até à próxima aula e uma ótima semana para todos!
Vamos focar a nossa atenção nos castigos corporais.
Uma nota prévia importante:
Alguns de nós (talvez a maioria) educámos os nossos filhos essencialmente de acordo com o que sabíamos e com o que os outros nos diziam na altura. Hoje em dia, sabemos coisas que não se sabiam então. E damos conta de que cometemos erros. E, possivelmente, sentimos remorsos por isso, o que é natural.
Não devemos olhar demasiado para o passado. Aceitemos esses remorsos porque são um bom sinal de que estamos vivos e humanos. Usemo-los agora como uma energia positiva para fazer coisas (qualquer coisa, por mais insignificante que seja, é boa) que contribuam para melhorar o mundo, e a vida das crianças em particular.
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Vamos começar com o que o Comité das Nações Unidas pelos Direitos da Criança, no seu Comentário Geral Nº 8 (2006), nos diz sobre os castigos corporais.
Ele define-os como "qualquer castigo no qual a força física é utilizada com a intenção de causar algum grau de dor ou desconforto, mesmo que leve".
Exemplos mais comuns:
Em conclusão, na consideração do Comité:
O castigo corporal é sempre degradante.
Não esquecendo as formas não-físicas de castigos que também são cruéis e degradantes e, portanto, incompatíveis com a Convenção sobre os Direitos da Criança. Por exemplo, os castigos em que "a criança é menosprezada, humilhada, desacreditada, convertida em bode expiatório, ameaçada, assustada ou ridicularizada".
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Há algo que é importante ressalvar aqui.
O ideal de adulto no qual desejamos que as nossas crianças se tornem é dos mais elevados. Mas nós não somos perfeitos, pelo que nem sempre conseguimos dar os melhores exemplos. O que fazer quando não procedermos de acordo com os nossos ideais?
Nessas situações, temos sempre uma forma de continuar pelo exemplo a educar bem. Se procedermos mal, podemos sempre pedir desculpa e explicar que errámos, que não conseguimos fazer melhor. Procurando fazer com que não repitamos o procedimento em causa. Assim, mostramos que continuamos a valorizar as melhores atitudes e os melhores comportamentos, mas sem hipocrisia.
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Vamos agora ver o que a ciência concluiu sobre os castigos corporais.
Provocam danos físicos diretos (no cérebro em desenvolvimento, por exemplo) e indiretos (aumentando os níveis de cortisol no organismo, por exemplo).
Aumentam agressões entre crianças e de crianças para adultos, diminuindo a empatia e a compaixão pelos outros. Veja-se, nomeadamente, o exemplo de São Cassiano.
Causam vários problemas de Saúde Mental (ansiedade, depressão, obsessões, etc.).
São inúteis para motivar comportamentos bons e mais saudáveis, antes promovem mentir, copiar nos testes (procurando não ser apanhadas), faltar às aulas, desafiar, consumos, e suicídio.
Estimulam futuros comportamentos agressivos: de delinquência, de violência, de abuso de poder e de ausência de respeito, para com outros que sejam mais fracos.
Ensinam que causar dor e sofrimento a alguém se justifica quando uma pessoa se sente frustrada.
Só muito parcialmente são eficazes para acabar com alguns maus comportamentos. Em estudos feitos através de filmagens do que se passa nas famílias, em suas casas, observou-se que «Os efeitos do castigo corporal foram transitórios: em 10 minutos, a maioria das crianças (73%) havia retomado o mesmo comportamento pelo qual haviam sido punidas.»
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Iremos continuar na próxima aula com o que a ciência nos diz sobre os castigos corporais.
Até lá, um muito obrigado pela excelente participação de todos e votos de uma ótima semana.
Tal como prometido no fim da aula anterior, iremos agora debruçar-nos sobre o uso de castigos corporais na educação de crianças. Façamos desde já uma declaração de interesses: somos contra.
Vários exemplos podemos apresentar de pessoas e entidades que apoiam esta posição de radical oposição e que pensam que é totalmente injustificado o uso de castigos corporais na educação de crianças.
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O primeiro é precisamente a Convenção Sobre os Direitos da Criança (CDC), em particular o seu artigo 19.1:
Os Estados Partes tomam todas as medidas legislativas, administrativas, sociais e educativas adequadas à protecção da criança contra todas as formas de violência física ou mental, dano ou sevícia, abandono ou tratamento negligente, maus-tratos ou exploração, (…)
Nota: “sevícia” significa castigo corporal.
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Quanto ao segundo exemplo, começarei ainda pela CDC, artigo 37:
Os Estados Partes garantem que: a) Nenhuma criança será submetida à tortura ou a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes. (…)
O Professor Doutor Rui Pereira afirmou no 2.º Encontro “Castigos Corporais Nunca Mais – Nem Mais Uma Palmada”, no dia 14.12.2022, que a violência pelas autoridades sobre criminosos, seja qual for o crime em causa, tem o nome de tortura. Logo, o castigo corporal sobre a criança é, por definição, tortura. Com a agravante de a criança não ter cometido nenhum crime, e de não saber nem ser capaz de se defender.
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O terceiro exemplo é constituído pelo País de Gales que, a 21/03/2022, se juntou-se a 63 outros países (de entre quase 200) que proíbem todas as formas de aplicar um castigo físico às crianças. Atualmente, são já 65 países que proíbem todo o tipo de castigos corporais sobre as crianças:
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O quarto exemplo é uma pesquisa recente (2016) que revelou que os pediatras dos EUA não endossam o castigo corporal: apenas 2,5% esperavam resultados positivos de bater em crianças.
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Por fim, o quinto exemplo é a o da própria campanha (ver foto no topo) do Instituto de Apoio à Criança, com o Alto Patrocínio de Sua Excelência, O Presidente da República. Que interveio expressivamente no 1º Encontro “Nem Mais Uma Palmada – Pela eliminação dos castigos corporais”, ao minuto 46:26.
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Sobre os castigos corporais, há uma primeira questão de carácter educacional sobre a qual precisamos de refletir:
Qual é o futuro adulto que desejamos criar?
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Várias características ideais foram listadas. Elas variam com o que cada família mais valoriza. Mas, procurando uma abrangência de todas elas, podemos talvez chegar à conclusão de que todos pretendemos que a criança aprenda:
Isto garante que as crianças aprendam tudo o que queremos para elas? Ajuda muito, mas claro que não. Há a questão do temperamento, proveniente da genética (considera-se que o peso desta anda por volta dos 50%). E os educadores não conseguem controlar todos os contextos em que a criança se move e que também a influenciam: primeiro na creche, depois na escola, no clube, na casa dos amigos, etc.
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Na sequência disto, impõe-se a pergunta:
Pode-se ensinar atitudes e emoções positivas (que estão por detrás dos nossos pensamentos e ações construtivos), utilizando meios agressivamente negativos (palmadas, por exemplo)?
Para exemplificar esta questão: pode-se encorajar e treinar qualquer pessoa a andar de bicicleta dando-lhe palmadas de castigo, sempre que cometer erros?
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No entanto, há quem aposte nos efeitos “benéficos” do medo infligido de forma violenta.
Esta última hipótese deverá ser posta fora de causa. Nas próximas aulas, iremos perceber porquê.
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Até lá, um muito obrigado pela excelente participação de todos e votos de uma ótima semana.