Link para o vídeo:
Saber como construir uma Civilização que promova a Felicidade de todos
Saber como construir uma Civilização que promova a Felicidade de todos
Vamos agora para o quarto pilar de uma educação para a paz. Vamos falar de valorizar e estimular progressos nas atitudes e no comportamento verbal e não verbal da criança.
Falo de "progressos" e não de resultados porque estes nem sempre são os que esperaríamos, nem muitas vezes são imediatos. Os progressos, sim, esses vão-se desenvolvendo ao longo do tempo e, portanto, dão muito mais oportunidades de elogiar a criança e de a encorajar no caminho certo.
Como podemos fazer isto?
-
A ausência de elogios tem várias consequências pouco positivas.
Tenhamos em atenção que um comportamento menos bom ou de resistência relacionado com o desempenho escolar por parte da criança pode sinalizar
É preciso despistar estas possibilidades, antes de pensarmos em criticá-la e condená-la (e muito menos de castigá-la!).
Antes de terminar o tema de como educar para a paz, gostaria de esclarecer que, evidentemente, a disciplina sem violência poderá ser imperfeita (há poucas coisas perfeitas no nosso mundo) – só que também é verdade que, com violência, é pior.
Com as crianças, hoje em dia, temos de escolher ou fazer coisas possivelmente ineficazes, ou fazer coisas decididamente criminosas. Bater numa criança é legalmente um crime, mas há outras coisas que, embora não haja lei que as proíba, são também crimes. Devemos evitar fazê-las. Falámos delas ao longo destes meses, mas, genericamente, podemos incluir tudo o que lhe cause um sofrimento físico ou mental que está na nossa mão impedir, sem que daí advenha um prejuízo para ela.
Mas têm os Educadores e os Cuidadores de ser perfeitos? Não. Nem o devem ser.
Por exemplo, os pais não devem responder sem falhar a todas as necessidades da criança, senão ela também não cresce (não aprende a lidar com dificuldades, a ultrapassá-las, etc.). A única necessidade cuja satisfação não deve ser nunca negada é a do AMOR.
Por isso, uma mãe ou um pai só precisam de ser suficientemente bons. A imperfeição é humana. As crianças preferem-na.
Até porque pais perfeitos constituem uma carga suplementar de culpabilização para os filhos durante toda a sua vida (devido a nunca conseguirem igualar a perfeição dos pais).
Em resumo, os 4 pilares de uma educação para a paz são:
Gostaria de pedir a todos que, para a próxima aula, trouxessem uma pergunta que desejassem ver tratada nas próximas semanas. Que esteja mais ou menos dentro do âmbito da Psicologia, de preferência. Uma pergunta que vos seja realmente importante e premente.
-
Obrigado e uma ótima semana para tod@s!
Vamos continuar com o que, sobre o castigo corporal, muita gente acredita:
9. O castigo corporal ensina uma criança a respeitar os outros. (ensina a ter medo, sim; a ter respeito, não)
10. O castigo corporal deve ser usado para disciplinar uma criança de cada vez que ela se comporta mal.
-
11. Os pais têm o dever de correção e, se for preciso bater, bate-se. (os pais têm o dever de correção, mas não têm o direito de cometer o crime de bater)
12. Os castigos corporais são sempre dados por amor e para segurança da criança. (não é verdade: o que a investigação demonstra é que os castigos corporais são aplicados porque os pais perderam a paciência)
13. As crianças esquecem com facilidade e recuperam bem de tudo o que de mal lhes façamos. (não é verdade: nem esquecem com facilidade, nem recuperam bem do mal que lhes fazem - aliás, se isto fosse verdadeiro, então bater para quê, se elas esquecem com facilidade?)
-
A encerrar este tema dos castigos corporais, aqui ficam alguns alertas do Instituto de Apoio à Criança:
📞 LINHA SOS CRIANÇA - 116 111
Uma equipa técnica especializada nos problemas que afetam as crianças e os jovens está deste lado para ouvir, acompanhar, ajudar, proteger e informar! 💙
Outros contactos disponíveis:
WhatsApp – 966 065 750 / 966 065 767 / 913 069 404
Chat online - www.iacrianca.pt
Email – soscrianca@iacrianca.pt
Linha SOS Criança Desaparecida - 116 000.
Para terminar este capítulo sobre o Estabelecimento de Limites e de como o fazer, lembro que só nos detivemos nos castigos corporais. Infelizmente, na nossa sociedade, as crianças são sujeitas ainda a muitos outros tipos de violência. Como, por exemplo, abuso sexual, abuso laboral, negligência e violência psicológica (da qual a violência verbal é apenas uma das suas várias componentes).
A luta para que as crianças sejam tratadas e educadas com a mesma justiça e a mesma humanidade que os adultos exigem para si mesmos ainda vai muito no princípio.
-
Uma ótima semana e obrigado pela participação de tod@s!
Vamos fazer uma reflexão final sobre Castigos Corporais, no sentido de percebermos melhor as pessoas que os defendem e de sermos capazes de as convencer a mudar de opinião.
Sabemos que praticamente todos os adultos concordam publicamente com o respeito pelos Direitos da Criança.
Mas, na prática, às ocultas de olhares estranhos, muitos adultos contradizem esse respeito com o seu comportamento violento em relação às crianças. Quantos serão?
Nos E.U.A.,
(…), an ongoing national survey from the University of Chicago reveals that support for the statement, “It is sometimes necessary to discipline a child with a good, hard spanking” was 83% in 1986, dropping to 72% in 1996 and 2006 and, most recently, remaining in the majority at 68% in 2016. (David Rettew, Parenting Made Complicated, Oxford University Press 2021, p.167/8)
Dados da Sociedade Internacional de Prevenção ao Abuso e à Negligência na Infância (Sipani) de São Paulo revelam que, em média, 18 mil crianças são vítimas de violência doméstica por dia, no Brasil; e nos últimos meses de pandemia, esses números possivelmente aumentaram, porém não estão sendo contabilizados.
De acordo com o estudo "Será que uma palmada resolve", do Instituto de Apoio à Criança (IAC), realizado com base em inquéritos online a 1.943 pessoas voluntárias, 30% dos pais consideram aceitável usar castigos corporais em crianças, sobretudo quando desobedecem aos pais, são "malcriadas" ou não cumprem com as regras da família.
Não há dúvida: em Portugal, os castigos corporais continuam a ser uma realidade! Apesar de serem puníveis por lei. Porém, a lei muitas vezes não é cumprida pelas pessoas, nem aplicada consistentemente pelos tribunais, como já vimos numa aula anterior. E pais, familiares e outros cuidadores continuam a bater.
Para responder àquela pergunta, vamos usar o estudo aqui referido.
Primeiro, os investigadores consideram Castigo Corporal como uso da força física com a intenção de causar dor à criança, mas não lesões nem ferimentos, com o objetivo de corrigir ou controlar o comportamento da criança.
Assim, sobre o castigo corporal, muita gente acredita que:
Efetivamente, esta crença nasce de uma ligação de causa e consequência que, pura e simplesmente não existe. Dar mimo, isto é, amor em abundância, não tem nada a ver com ela ficar sem limites e regras. Aliás, um amor verdadeiro, que não seja apenas uma manifestação de um sentimentalismo barato, implica que se estabeleçam limites e regras ao que a criança pode fazer, a fim de garantir a sua segurança e o seu bem-estar, bem como os de todos os outros que convivam com ela.
-
Ao longo da aula, foram referidas vários fatores que concorrem para haver pessoas que continuam a agredir com violência os seus filhos. Eis as contribuições dos presentes:
Note-se ainda que o ser humano é muito complexo e não encaixa em nenhuma teoria, pelo que aqui não se fala de causas, mas apenas de condições que facilitam o eclodir da violência. E que continuam a alimentar aquelas crenças.
Continuaremos na próxima aula. Uma ótima semana para tod@s!
Na aula passada, vimos que, sob o ponto de vista ético, punir fisicamente uma criança é inaceitável porque reprovamos tal medida quando aplicada aos adultos.
Mas uma segunda razão é que são ilimitadas:
-
Em suma, porque batemos numa criança?
Porque o sistema de ameaça fica ativado e produz emoções negativas. O organismo percebe que o outro (criança) é mais fraco e opta pela “luta”. Porque, se percebesse que o outro era mais forte, engolia a zanga e fugia ou paralisava ou submetia-se (por isso, deixamos de bater no rapaz quando ele começa a ficar do nosso tamanho). Não é bonito. Nem ético.
Além de tudo o mais, anotemos que, desde 2007, os castigos corporais são proibidos pela lei penal portuguesa!
O Código Penal Português [artigos 152º (Violência doméstica) e 152º-A (Maus tratos)] tipifica os maus tratos físicos ou psíquicos, incluindo castigos corporais de crianças pelos educadores, como crimes de violência doméstica e de maus tratos. O agente é punido com pena de prisão de um a cinco anos, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal, podendo ainda o agente ser inibido do exercício do poder paternal.
-
Vejamos um exemplo para refletir (notícia do Público de 1-2-2023):
Tribunal da Relação absolve pai que esbofeteou o filho: “Foi um castigo leve e proporcional”
Acórdão assinado pelo juiz Carlos Coutinho diz que “punição foi legítima, porque o arguido é o pai do ofendido e agiu com a intenção de o corrigir”
O rapaz de 13 anos combinara apanhar o autocarro no final das aulas. O pai esperou, telefonou – uma, duas, três, quatro, “20 vezes”. Avisou a ex-mulher que ia alertar as autoridades. O rapaz deu sinal de vida. Estava a jogar futebol, num campo adjacente à escola. Tinha o telemóvel em silêncio. O pai precipitou-se para lá e, à frente dos colegas, deu-lhe uma bofetada.
Duas perguntas apenas:
-
Na próxima semana, iremos continuar a refletir sobre este tema.
Até lá, uma ótima semana para tod@s!
Saiu esta semana o Ranking da Felicidade baseado na média dos três anos, de 2020 a 2022, divulgado pelo World Happiness Report 2023:
Notemos como, dentre os 10 países mais felizes, 7 são as sociais-democracias do Norte da Europa (8, se contarmos com a Suíça que também tem uma baixa desigualdade de rendimentos).
Numa aula mais atrás, falámos de como elogiar era algo de extremamente vantajoso para adultos e crianças. Por vezes, parece ser difícil encontrar o que elogiar. No entanto, lembremo-nos de que há no mundo muito mais coisas positivas do que negativas – só temos que desenvolver uma atitude descobridora dessas coisas positivas. Em particular, os aspetos e acontecimentos de vida positivos excedem os negativos; tal como acontece com as características e qualidades positivas das pessoas que excedem as negativas.
Tal como fazíamos com um exercício de que falámos no passado para a gratidão, contemos diariamente 3 coisas boas que as crianças fizeram. Depois, agradeçamo-las e celebremo-las:
Voltando à Pirâmide de Maslow:
Reparemos como, tanto para crianças como para adultos, satisfazer estas necessidades contribui para:
Para as crianças, em especial, contribui também para ensiná-las como fazê-lo de forma saudável e autónoma, quando crescerem e se tornarem independentes.
Na verdade, podemos usar esta Pirâmide como um instrumento para nos colocarmos duas interrogações:
A segunda pergunta é muito mais fácil de responder: NÂO, nenhuma daquelas necessidades é satisfeita com o recurso a castigos corporais. Logo, a conclusão necessária é que estes são usados para satisfazer as necessidades do adulto e só do adulto.
-
Depois de analisada a questão do ponto de vista educacional, vamos agora considerá-la do ponto de vista ético.
Os fins justificarão os meios?
O argumento para um "sim" toma a seguinte forma:
Os meios são abomináveis ("sim, os castigos corporais são uma coisa horrível"), mas como o fim é louvável, esses meios ficam automaticamente justificados ("assim, a criança fica educada e os castigos corporais são bons e úteis").
É assim que se justificam as guerras.
Não.
Primeiro que tudo, porque reprovamos tal medida quando aplicada aos adultos (apesar de eles até serem bem mais capazes de se defenderem do que as crianças), dado ser algo de ofensivo para a sua dignidade como pessoas.
Se isto não for claro, podemos perguntar-nos que razões podem haver para defender a punição física de:
-
Na próxima semana, iremos continuar a refletir sobre este tema.
Até lá, uma ótima semana para tod@s!