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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

A Ciência e os castigos corporais

 


Para além de problemas cognitivos, os castigos corporais provocam problemas emocionais, agravando os do presente, e expandindo-os no futuro: problemas de ansiedade, de depressão, de hostilidade, de instabilidade emocional e de desespero que levam algumas vezes ao suicídio ou às dependências de álcool ou drogas.

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Não ensinam as crianças a lidar com emoções difíceis, a não ser pela sua repressão. Que, se for levada ao extremo, acaba na anorexia, na automutilação ou mesmo no suicídio.

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Promovem baixos amor-próprio e autoestima.

Lembremo-nos de como nos sentimos humilhados sempre que fomos vítimas de violência física, tanto na infância como na idade adulta.

O amor-próprio existe quando reconhecemos que temos valor como seres humanos, independentemente do que fazemos ou do que conseguimos. A autoestima é o que pensamos e sentimos de nós próprios a partir das nossas realizações no mundo.

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Aumentam a probabilidade de, em idades posteriores, se aceitar ser vítima passiva de variados tipos de abusos físicos e psicológicos.

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Aumentam a probabilidade de, em adulto, reagir com violência com os seus próprios filhos, companheiro/a e pais.

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Levam a que a criança assim castigada adquira um sentido moral distorcido e antissocial. Pelo que trazem à criança dificuldades acrescidas de adaptação social na escola, no clube, no grupo de amigos, etc.

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Promovem nela uma maior propensão para acidentes, bem como para a adoção de hábitos prejudiciais, como fumar ou beber.

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Tudo o que aqui se registou de mau sobre os castigos corporais ainda se torna pior em crianças que, temperamentalmente, são mais ansiosas ou zangadiças, ou ambas.

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Mas a ciência há de ter descoberto alguns benefícios de se usarem os castigos corporais, ou não?

Não.

“Apenas um único estudo de 1981 com 24 crianças mostrou melhoria estatisticamente significativa, a curto prazo, na obediência, em comparação com estratégias alternativas - time-out e um grupo de controle” (isto é, não fazer nada). 

No entanto, este estudo, por melhor que tivesse sido realizado, apresenta muitas limitações.

Primeiro, porque analisa apenas 24 crianças. É pouco, muito pouco para se poderem fazer generalizações minimamente interessantes.

Segundo, só mostrou melhorias a curto prazo, o que vem confirmar estudos posteriores que referem a pouca eficácia dos castigos corporais a longo prazo.

Terceiro, só se debruçou sobre a obediência, o que me parece pobre como objetivo de uma educação de crianças. 

Quarto, só comparou com a técnica do time-out e com não fazer nada. Não se comparou, por exemplo,  com ouvir e conversar com a criança, algo que seria muito mais interessante de saber qual a diferença entre os dois métodos. 

Portanto, apesar de ser o único estudo em décadas que mostra alguma vantagem nos castigos corporais, acaba por confirmar a pobreza de resultados deste tipo de educação. 

Em suma, até ao momento, não existe nenhuma outra investigação que tenha descoberto que os castigos corporais trazem o que quer que seja de positivo.

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Qual a razão profunda para os castigos corporais terem tão maus efeitos na criança?

Sobreativam o Sistema Focado na Ameaça, no Perigo e na Autoproteção, sistema neuronal que tem como função procurar proteger a criança (e as pessoas em geral) da dor e das ameaças.

Este Sistema dá origem a respostas muito básicas, e inadequadas a maior parte das vezes. Já sabemos quais: luta, fuga, submissão, paralisação e dissociação. 

Ora, a criança, pelo seu tamanho e pela sua fragilidade face ao adulto, não tem as opções de lutar nem de fugir. Assim, só lhe resta a submissão, a paralisação e a dissociação. Se estas respostas se tornam num hábito pela prática continuada de castigos corporais, a aprendizagem que ela faz para a vida não é minimamente positiva (isto é, se não tivermos um ideal para ela de um futuro adulto robotizado e neurótico). Além de criar um stress continuado do organismo.

A ativação deste sistema pode bloquear a estimulação e o desenvolvimento dos outros sistemas – e o que não se usa, perde-se (“Use it or lose it”, como dizem os anglo-saxónicos). Por exemplo, no:

  • Sistema Focado na Busca de Recursos e de Incentivos – as crianças ficam apáticas, desinteressadas, “preguiçosas”, deprimidas, etc.
  • Sistema Focado na Tranquilização, na Ligação aos Outros e na Segurança Afetiva – as crianças ficam ansiosas, irritadiças, pouco sociáveis, pouco empáticas, sem consideração pelos outros (incluindo pela família).

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Felizmente, a ciência propõe alternativas aos castigos corporais que apresentam a vantagem adicional de estimularem estes dois últimos sistemas. Na verdade, os métodos educativos que estimulam estes sistemas constituem o cerne da chamada parentalidade positiva.

Mesmo quando se tratar de situações graves ou muito graves, devemos sempre procurar que as nossas ações estimulem o menos possível o sistema de ameaça da criança.

Recorde-se mais uma vez que qualquer tipo de comportamento crítico (por palavras ditas ou escritas, expressões não verbais ou ações) nos ativa a todos o sistema de ameaça. 

Por outro lado, o que nos custa elogiar?

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Obrigado a tod@s pela excelente participação! Uma ótima semana, com saúde e alegria!


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