Saber como construir uma Civilização que promova a Felicidade de todos

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Castigos corporais: mitos e crenças

 


Vamos fazer uma reflexão final sobre Castigos Corporais, no sentido de percebermos melhor as pessoas que os defendem e de sermos capazes de as convencer a mudar de opinião.

Sabemos que praticamente todos os adultos concordam publicamente com o respeito pelos Direitos da Criança. 

Mas, na prática, às ocultas de olhares estranhos, muitos adultos contradizem esse respeito com o seu comportamento violento em relação às crianças. Quantos serão?

Nos E.U.A.,

(…), an ongoing national survey from the University of Chicago reveals that support for the statement, “It is sometimes necessary to discipline a child with a good, hard spanking” was 83% in 1986, dropping to 72% in 1996 and 2006 and, most recently, remaining in the majority at 68% in 2016. (David Rettew, Parenting Made Complicated, Oxford University Press 2021, p.167/8)

Note-se que, quando as pessoas respondem a um inquérito, por vergonha, muita gente não diz o que pensa e muito menos o que faz, tal como nas sondagens que dão sempre menos intenções de voto aos políticos mais grosseiros e brutais.

No Brasil,

Dados da Sociedade Internacional de Prevenção ao Abuso e à Negligência na Infância (Sipani) de São Paulo revelam que, em média, 18 mil crianças são vítimas de violência doméstica por dia, no Brasil; e nos últimos meses de pandemia, esses números possivelmente aumentaram, porém não estão sendo contabilizados.

De acordo com o estudo "Será que uma palmada resolve", do Instituto de Apoio à Criança (IAC), realizado com base em inquéritos online a 1.943 pessoas voluntárias, 30% dos pais consideram aceitável usar castigos corporais em crianças, sobretudo quando desobedecem aos pais, são "malcriadas" ou não cumprem com as regras da família.

Ainda em Portugal, 5300 crianças e respetivos pais que participam no projeto Geração XXI - uma das maiores coortes de crianças da Europa - compõem a amostra deste estudo realizado pelo Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto. 75% dos menores com sete anos de idade reportaram ser vítimas de agressão psicológica e de castigo corporal com frequência e 10% revelaram maus-tratos físicos graves e muito graves.

Não há dúvida: em Portugal, os castigos corporais continuam a ser uma realidade! Apesar de serem puníveis por lei. Porém, a lei muitas vezes não é cumprida pelas pessoas, nem aplicada consistentemente pelos tribunais, como já vimos numa aula anterior. E pais, familiares e outros cuidadores continuam a bater.

Porque se continua a consentir o castigo corporal sobre as crianças?

(Note-se: consente-se apenas no seio da família, o que não se percebe – se pensam que bater é assim tão bom, porque não defendem, por exemplo, que os especialistas da educação e da psicologia também devem bater nelas?)

Para responder àquela pergunta, vamos usar o estudo aqui referido.

Primeiro, os investigadores consideram Castigo Corporal como uso da força física com a intenção de causar dor à criança, mas não lesões nem ferimentos, com o objetivo de corrigir ou controlar o comportamento da criança.

Assim, sobre o castigo corporal, muita gente acredita que:

  1. O castigo corporal usado para disciplinar uma criança é inofensivo.
  2. Usar do castigo corporal ocasionalmente para disciplinar uma criança não lhe causa danos.
  3. O uso do castigo corporal ensina responsabilidade à criança e ajuda a desenvolver o seu caráter.
  4. É irrealista pensar que os pais nunca devem usar o castigo corporal para disciplinar uma criança (não é, já que nos países onde existe há mais tempo legislação a proibir os castigos corporais são aqueles onde eles ocorrem menos frequentemente).
  5. O castigo corporal funciona melhor do que outros métodos de disciplina.
  6. O castigo corporal deve ser usado para disciplinar tanto meninos como meninas. 
  7. O castigo corporal é a única coisa que as crianças entendem.
  8. Sem o uso do castigo corporal para disciplinar as crianças, elas tornam-se mimadas e ficam sem regras.

Todas estas crenças são falsas, como foi demonstrado até à exaustão pela investigação científica. Em particular, a última (8) é tragicamente falsa!

Efetivamente, esta crença nasce de uma ligação de causa e consequência que, pura e simplesmente não existe. Dar mimo, isto é, amor em abundância, não tem nada a ver com ela ficar sem limites e regras. Aliás, um amor verdadeiro, que não seja apenas uma manifestação de um sentimentalismo barato, implica que se estabeleçam limites e regras ao que a criança pode fazer, a fim de garantir a sua segurança e o seu bem-estar, bem como os de todos os outros que convivam com ela.

-

Ao longo da aula, foram referidas vários fatores que concorrem para haver pessoas que continuam a agredir com violência os seus filhos. Eis as contribuições dos presentes:

  • Maus tratos sofridos na infância
  • Cultura da época
  • Regiões com hábitos diferentes, em que algumas defendem mais os castigos corporais
  • Falta de informação e de conhecimento
  • Cansaço e outras pressões com origem no contexto onde as pessoas vivem o seu dia-a-dia (nomeadamente nos seus trabalhos)

Acrescentei ainda mais um fator relevante: o clima político e socioeconómico do país – onde há mais solidariedade social e menos violência do Estado, há menos agressões entre as pessoas em geral.

Note-se ainda que o ser humano é muito complexo e não encaixa em nenhuma teoria, pelo que aqui não se fala de causas, mas apenas de condições que facilitam o eclodir da violência. E que continuam a alimentar aquelas crenças.

-

Continuaremos na próxima aula. Uma ótima semana para tod@s!


Sem comentários:

Enviar um comentário

Resumo da aula de 19-02-2026

  Link para o vídeo: Aula de 19-02-2026