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sexta-feira, 31 de março de 2023

A Ética nos castigos corporais


Na aula passada, vimos que, sob o ponto de vista ético, punir fisicamente uma criança é inaceitável porque reprovamos tal medida quando aplicada aos adultos.

Mas uma segunda razão é que são ilimitadas:

  • a dependência de uma criança pequena em relação aos pais, 
  • a sua confiança ingénua neles, 
  • a sua absoluta necessidade vital de amarem e de serem amadas,
  • a sua incapacidade física de se defenderem das agressões.

Assim, puni-la fisicamente não será aproveitar estas características infantis, de uma forma pelo menos um pouco brutal e abusadora? E, no fundo, segundo a ciência, resultando na quase inevitável desgraça presente e futura dessa criança e da sociedade, em geral.

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Em suma, porque batemos numa criança?

Porque o sistema de ameaça fica ativado e produz emoções negativas. O organismo percebe que o outro (criança) é mais fraco e opta pela “luta”. Porque, se percebesse que o outro era mais forte, engolia a zanga e fugia ou paralisava ou submetia-se (por isso, deixamos de bater no rapaz quando ele começa a ficar do nosso tamanho). Não é bonito. Nem ético.

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Além de tudo o mais, anotemos que, desde 2007, os castigos corporais são proibidos pela lei penal portuguesa!

O Código Penal Português [artigos 152º (Violência doméstica) e 152º-A (Maus tratos)] tipifica os maus tratos físicos ou psíquicos, incluindo castigos corporais de crianças pelos educadores, como crimes de violência doméstica e de maus tratos. O agente é punido com pena de prisão de um a cinco anos, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal, podendo ainda o agente ser inibido do exercício do poder paternal.

A jurisprudência considera que a punição física de um filho constitui a prática de um crime de ofensa à integridade física. Mas continua, infelizmente, a discutir os limites entre o poder de correção dos pais e a ofensa à integridade física penalmente punida, e a aceitar que a intenção de educar pode excluir o dolo enquanto intenção de molestar fisicamente.

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Vejamos um exemplo para refletir (notícia do Público de 1-2-2023):

Tribunal da Relação absolve pai que esbofeteou o filho: “Foi um castigo leve e proporcional”

Acórdão assinado pelo juiz Carlos Coutinho diz que “punição foi legítima, porque o arguido é o pai do ofendido e agiu com a intenção de o corrigir”

O rapaz de 13 anos combinara apanhar o autocarro no final das aulas. O pai esperou, telefonou – uma, duas, três, quatro, “20 vezes”. Avisou a ex-mulher que ia alertar as autoridades. O rapaz deu sinal de vida. Estava a jogar futebol, num campo adjacente à escola. Tinha o telemóvel em silêncio. O pai precipitou-se para lá e, à frente dos colegas, deu-lhe uma bofetada.

Duas perguntas apenas:

  1. Corrigir o quê? O rapaz apercebeu-se da falha e tinha telefonado ao pai a descansá-lo.
  2. Não haveria outra maneira de levar o rapaz a não repetir esse comportamento? Claro que sim. Vários dos presentes contaram episódios a que assistiram de pais que assumiram atitudes completamente diferentes e até mais educativas.

Ou seja, do meu ponto de vista, teria de haver uma razão fortíssima (o que parece não se verificar aqui) para o juiz ir contra a lei e absolver o agressor. Assim, o que se pode concluir é que, infelizmente, existe um claro preconceito por parte do juiz contra o rapaz, que afetou gravemente a sua decisão.

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Na próxima semana, iremos continuar a refletir sobre este tema.

Até lá, uma ótima semana para tod@s!


domingo, 26 de março de 2023

Castigos corporais: satisfação das necessidades humanas e a ética

 


Saiu esta semana o Ranking da Felicidade baseado na média dos três anos, de 2020 a 2022, divulgado pelo World Happiness Report 2023:


Notemos como, dentre os 10 países mais felizes, 7 são as sociais-democracias do Norte da Europa (8, se contarmos com a Suíça que também tem uma baixa desigualdade de rendimentos).

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Numa aula mais atrás, falámos de como elogiar era algo de extremamente vantajoso para adultos e crianças. Por vezes, parece ser difícil encontrar o que elogiar. No entanto, lembremo-nos de que há no mundo muito mais coisas positivas do que negativas – só temos que desenvolver uma atitude descobridora dessas coisas positivas. Em particular, os aspetos e acontecimentos de vida positivos excedem os negativos; tal como acontece com as características e qualidades positivas das pessoas que excedem as negativas.

Tal como fazíamos com um exercício de que falámos no passado para a gratidão, contemos diariamente 3 coisas boas que as crianças fizeram. Depois, agradeçamo-las e celebremo-las:

  • Para ela se sentir recompensada e bem.
  • Para reforçarmos os comportamentos bons (e, assim, encorajarmo-las a repeti-los).
  • E para nós também nos sentirmos bem.

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Voltando à Pirâmide de Maslow:


Reparemos como, tanto para crianças como para adultos, satisfazer estas necessidades contribui para:

  • equilibrar os três sistemas de regulação de emoções;
  • promover a sua realização plena como ser humano feliz e útil para a sociedade.

Para as crianças, em especial, contribui também para ensiná-las como fazê-lo de forma saudável e autónoma, quando crescerem e se tornarem independentes.

Será preciso mais para as crianças? Na verdade, pouco mais, apenas faltaria satisfazer as que se referem a necessidades específicas de desenvolvimento (por exemplo, mover, interagir, educar, brincar, etc.). Porém, se se conseguisse garantir-lhes só isto, já seria muito bom!

Na verdade, podemos usar esta Pirâmide como um instrumento para nos colocarmos duas interrogações:

  1. Estamos a contribuir positivamente para que a criança esteja a ter as suas necessidades satisfeitas? Pelo menos, as quatro primeiras básicas? 
  2. Há alguma destas necessidades que seja adequadamente satisfeita com o uso de castigos corporais?

À primeira pergunta, a resposta dependerá do que cada um de nós estiver a conseguir fazer com as suas crianças.

A segunda pergunta é muito mais fácil de responder: NÂO, nenhuma daquelas necessidades é satisfeita com o recurso a castigos corporais. Logo, a conclusão necessária é que estes são usados para satisfazer as necessidades do adulto e só do adulto.

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Depois de analisada a questão do ponto de vista educacional, vamos agora considerá-la do ponto de vista ético.

Os fins justificarão os meios?

O argumento para um "sim" toma a seguinte forma:

Os meios são abomináveis ("sim, os castigos corporais são uma coisa horrível"), mas como o fim é louvável, esses meios ficam automaticamente justificados ("assim, a criança fica educada e os castigos corporais são bons e úteis").

É assim que se justificam as guerras.

Vejamos: Será que, sob o ponto de vista ÉTICO, punir fisicamente uma criança é defensável? Porquê?

Não. 

Primeiro que tudo, porque reprovamos tal medida quando aplicada aos adultos (apesar de eles até serem bem mais capazes de se defenderem do que as crianças), dado ser algo de ofensivo para a sua dignidade como pessoas.

Se isto não for claro, podemos perguntar-nos que razões podem haver para defender a punição física de:

  • um polícia ou um militar sobre um civil?
  • um patrão sobre um empregado?
  • um director da cadeia sobre um recluso?
  • um comandante sobre um soldado ou um marinheiro?
  • um marido sobre a sua mulher?
  • um professor sobre um aluno?
Na verdade, não existem razões nenhumas e, por isso, ninguém defende a punição física nestes casos. Então, porquê abrir exceção para a punição física infligida pelos pais sobre os seus filhos?

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Na próxima semana, iremos continuar a refletir sobre este tema.

Até lá, uma ótima semana para tod@s!


sexta-feira, 17 de março de 2023

Como as crianças são prejudicadas pela ganância da sociedade

 

(trabalho sobre foto daqui)

Hoje, a aula tem um pendor mais político. A nossa disciplina tem no início do seu nome a palavra "Sabedoria". Portanto, a aula de hoje espera contribuir para aumentar a nossa sabedoria. 

O título desta aula já aponta para o que vamos tratar.

Começamos com um gráfico publicado em R. Wilkinson and K. Pickett (2009). The Spirit Level: Why Greater Equality Makes Societies Stronger. London: Bloomsbury Press.

Por aqui vê-se que, nos países onde há menos desigualdade de rendimentos (ou seja, onde os rendimentos se encontram melhor distribuídos), há menos problemas sociais e de saúde. Sem surpresa, vemos como as sociais-democracias do Norte da Europa estão bem situadas. 

Um pouco surpreendentemente, vemos que Portugal é o pior a seguir aos Estados Unidos: estamos muito mais próximos do capitalismo dos E.U.A. do que da social-democracia do Norte da Europa. Mais problemas sociais e de saúde significam, evidentemente, uma vida muito pior para as crianças (que não têm meios para superar por si sós esses problemas).

Notemos que este gráfico foi elaborado com dados de antes do crash financeiro de 2008/9, de antes da “Troika”, de antes da pandemia, de antes da Guerra da Ucrânia, e de antes da inflação atual.

Três interrogações se impõem.

Primeira. Porque não seguimos o exemplo das sociais-democracias do Norte da Europa? Não teríamos que inventar nada, trata-se de imitar apenas; então, porque não fazemos algo de tão simples?

Segunda. Será porque não criamos riqueza? E, portanto, simplesmente não há dinheiro para distribuir?

Terceira. Depois de todos os acontecimentos acima invocados (crash, etc.), será que estaremos em pior situação do que antes de 2009?

Para podermos responder a estas interrogações, façamos uma pequena pesquisa às notícias dos jornais nas últimas semanas (os sublinhados são meus).

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Comecemos, então, por ver o que se passa nos E.U.A.

No "The Wall Street Journal", em 2 de março de 2023, é dada esta notícia:

Os lucros dos bancos caíram 6% no ano passado [2022], uma vez que a guerra, a inflação e as taxas [de juro] mais altas prejudicaram os resultados.

E em Portugal? Já sabemos que, de acordo com os maiores responsáveis do país, nós somos muito vulneráveis a crises na Europa e nos E.U.A. Portanto, aqui não haverá surpresas, certamente que estaremos piores do que eles. Ou não...?

No Jornal de Notícias de 11-03-2023:

Os cinco maiores bancos que operam em Portugal tiveram lucros de 2583 milhões de euros em 2022, mais 71% do que em 2021, quando o valor agregado foi de 1511,7 milhões de euros. Em média, somaram sete milhões de euros de lucros por dia.

Em particular (Jornal de Notícias de 13-03-2023):

  • O Montepio quintuplicou, 
  • o Novo Banco triplicou, 
  • o Santander duplicou, 
  • o Millennium BCP ficou-se pelos 50,3%, 
  • a CGD cresceu 44,5% 
  • e o BPI não foi além de uns míseros 19%.

Estes resultados foram obtidos no ano em que aconteceu a Covid-19, a Guerra na Ucrânia e a inflação galopante que continua atualmente. Ano de grande crise, a acreditar nos nossos responsáveis políticos e económicos.

Como terão os nossos bancos conseguido? Teremos GÉNIOS na nossa banca? Infelizmente, talvez não,…


Bom, assim também eu... 

Mas talvez estejamos a ser injustos. Afinal, os bancos precisam mesmo disto porque não tiveram ajuda de ninguém para ultrapassar as consequências da sua irresponsabilidade e da sua incompetência nos últimos anos... Ou tiveram?

No Jornal de Notícias de 13-03-2023:

A Banca custou ao Estado 22 mil milhões de euros entre 2008 e 2021. 

Note-se que o Estado não produz riqueza, portanto fomos todos nós, os contribuintes que "oferecemos" aquele dinheiro aos bancos.

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Esta quantia é tão gigantesca (22.000.000.000 euros) que não fazemos ideia do que ela representa. Façamos, enão, um exercício simples.

Um carrinho de supermercado cheio de produtos básicos talvez custe hoje em dia cerca de 100 euros. Logo, aqueles 22 mil milhões dariam para 220 milhões de carrinhos de supermercado.

Segundo Luísa Loura, diretora da Pordata, em 2020: 

Sem os apoios sociais, 4, 4 milhões são pobres ou têm rendimentos abaixo do limiar da pobreza [554 euros mensais], o que passa para 1,9 milhões após as transferências sociais", explica Luísa Loura, diretora da Pordata.

E confirma o primeiro-ministro na Assembleia da República.

Então, teríamos para cada um dos pobres (considerados individualmente, criança, adulto, idoso, não como família) que continuam pobres mesmo depois dos apoios sociais, 116 carrinhos de supermercado, se aplicássemos aquele dinheiro a ajudá-los.

Assim, já começamos a ter uma ideia da dimensão daquela quantia descomunal que tiraram dos nossos bolsos para passá-la para os bancos.

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Aqui surge uma nova interrogação:

Não estaria na altura de os bancos começarem a agradecer e a retribuír esta nossa extraordinária generosidade? Por exemplo, remunerando melhor os depósitos e baixando o custo global do crédito?

Não, não, não, NÃO, NUNCA!!! NEM PENSAR!!!

Vítor Bento,  presidente da Associação Portuguesa de Bancos, explica-nos com simplicidade porquê, no Expresso Economia de 11-11-2022:


Por outras palavras, 

Curioso ainda um presidente desta associação não saber o que é um lucro excessivo, aquilo que um Zé da Esquina qualquer sabe. Na verdade, é impressionante como, no nosso país, pessoas ignorantes conseguem chegar a cargos de topo como este!

Ou então, uma explicação alternativa, É Ricardo Petrella que tem razão, numa entrevista na Economia Pura, nº11, pp.18-19) em relação às escolas de Gestão que ensinam (mal!) estas pessoas? 

Não vemos diferença entre as escolas militares e as escolas de gestão. Foi por isso que propus há muito o encerramento das escolas de gestão, de “management business administration”. Estas escolas não ensinam. O que fazem é ensinar a matar. Formam matadores, conquistadores, winners. Não ensinam a gerir uma empresa.

A verdade é que estes cursos de Gestão já atraem estudantes com valores mais elevados naquilo que na Psicologia se chama de Tríade Obscura (Dark Triad): narcisismo, maquiavelismo e psicopatia (Vedel, A., & Thomsen, D. K. (2017). The Dark Triad across academic majors. Personality and Individual Differences, 116, 86-91.). O que explica de um Vítor Bento e de outros.

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Infelizmente, não são só os bancos a não ter nem ética nem humanidade.


Ou no Jornal de Notícias de 11-03-2023:

No comércio a retalho, os portugueses são todos os dias roubados. Aos preços de produtos de primeira necessidade são impostas escandalosas margens de lucro. Segundo a ASAE "no retalho, registámos margens médias de lucro bruto, referentes ao ano de 2022, entre: 20% e 30% (açúcar branco, óleo alimentar, dourada); 30% e 40% (conservas de atum, azeite, couve-coração); 40% e 50% (ovos, laranja, cenoura, febras de porco); e mais de 50% (cebola)". Este roubo prossegue em 2023.

Ou no Observador de 25-01-2023:

A Sonae MC, dona dos hipermercados Modelo Continente, fechou 2022 com um volume de negócios de 5.978 milhões de euros, o que traduz uma subida de 11,5% face aos 5.362 milhões registados em 2021. É o valor mais elevado de sempre. 

Ou no Jornal i de 10-11-2022:


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Cada vez se torna mais premente a interrogação: Quem é mais afetado por isto? Ou seja, quem é que tem menos capacidade para fazer frente a estas dificuldades?

A resposta é, claro, as crianças. E, depois, os pobres.

Como nos diz Gonçalo M. Tavares, na sua coluna no Jornal de Notícias de 12-03-2023:


Mas há mais:


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O dinheiro não nasce das árvores, nem cai do céu. Para uns ganharem, alguém tem de perder. Quanta miséria se criou e mantém, em particular entre as crianças, só para eles terem estes lucros?

Por acaso, até podemos responder a esta pergunta - no Barómetro da DECO PROTESTE (15-03-3023):

Cerca de três quartos (74%) das famílias enfrentam, mensalmente, dificuldades financeiras, sendo que 8% se encontram em situação crítica: têm dificuldade em pagar todas as despesas ditas essenciais (mobilidade, alimentação, saúde, habitação, lazer e educação). 

Sobre as crianças, também podemos ter a resposta, vinda da própria ministra Ana Mendes Godinho do atual Governo. No Jornal de Notícias de 24-01-2023:

Em Gaia existem 4492 crianças em situação de pobreza extrema, afirmou a ministra do Trabalho e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho (...) sublinhando que a nível nacional o número ascende às "170 mil".

Saliento que não se trata de pobreza simplesmente, é «pobreza extrema»!

E, para estas crianças, sair da pobreza é fácil? Não, não é. Em Portugal, demora em média 5 gerações, mais de 100 anos, como indica o Relatório da OCDE de 2018:


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Aqui, começa a impor-se uma nova pergunta: Qual o nome da ideologia que favorece uma situação como esta? A resposta é clara: Capitalismo (em todo o seu esplendor, diga-se de passagem!).

E quais as causas desta situação no nosso país? Na verdade, como disse atrás, só tínhamos que imitar as sociais-democracias do Norte! Porque riqueza produzimos e temos, como se viu. Porque não o fazemos?

Várias respostas surgem: a corrupção, a ganância, alguma desinformação, o desprezo dos dirigentes pela população em geral, etc. Ao que a população portuguesa responde, mas com um certo conformismo resignado (penso que se trata ainda de sombras longas do fascismo que não desapareceram).

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Mas não é só aqui que as crianças estão mal. Ainda esta semana, se soube que…

No Expresso de 11-03-2023:

“Já tivemos crianças de 11 anos aqui” - O alerta é dado pela equipa da maior urgência de pedopsiquiatria do país: no Hospital de Dona Estefânia, em Lisboa, são cada vez mais os jovens que tentam suicidar-se. Os números duplicaram em quatro anos, segundo Gonçalo Cordeiro Ferreira, o diretor da Pediatria Médica da unidade. 

Ou no Jornal de Notícias de 14-03-2023:

A violência nas escolas está a atingir proporções alarmantes, sendo que muito do bullying não chega sequer ao conhecimento dos professores, pais ou autoridades. Só aqueles em que o maltratado necessita de tratamento hospitalar. (...) Há evidências claras de que as escolas estão sobrecarregadas, o que leva a um mal-estar constante e se traduz num aumento de casos de bullying, automutilação e até tentativas de suicídio

Ou no Jornal de Notícias de 11-03-2023:

(…) acidentes rodoviários são a principal causa de morte entre os cinco e os 29 anos, (…) “A nossa geração mais jovem, se já não está a ir para o estrangeiro, está a morrer nas nossas estradas. (…)”

Ou no Público de 11-03-2023:

A invalidade de metadados (…) já destruiu dezenas de casos de pornografia infantil, tanto durante a investigação como na fase de julgamento. Quem o diz é Pedro Verdelho, director do Gabinete de Cibercrime, que coordena a actividade do Ministério Público na área da cibercriminalidade.

De notar que não é "A invalidade de metadados (...)", mas sim de "A lei dos metadados mal feita pelo Governo e pelo Parlamento (...)".

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Mas já chega de más notícias (e houve muitas que eliminei!). Vamos acabar com uma boa notícia: a Delta Cafés aderiu à campanha "Nem Mais Uma Palmada"!


Uma boa semana para tod@s e obrigado pela participação animada!


quinta-feira, 9 de março de 2023

Para elogiar; e a satisfação das necessidades fundamentais do ser humano

 

(trabalho sobre foto tirada daqui)

Na aula passada, vimos como procurar beleza à nossa volta a fim de termos coisas positivas que podemos elogiar. Com a mesma finalidade (para facilitar o elogio), como encontrar beleza nas crianças?


  • Há que procurarmos a beleza (por causa do viés da negatividade) e deixarmo-nos surpreender – desenvolvamos sentidos descobridores de belezas/coisas positivas.
  • Descubramos o que há de belo, de bom, de interessante ou de simplesmente agradável na criança. 

Não é assim tão difícil. Tenhamos em atenção que, na vida em geral, há muito mais coisas positivas do que negativas! Os aspetos e acontecimentos de vida positivos excedem os negativos – pensem no dia de hoje, por exemplo. Assim também as características e qualidades positivas das pessoas excedem as negativas – pensem numa pessoa próxima, por exemplo.

  • Façamos uma lista (por escrito) com as qualidades da criança, para as termos presentes no nosso espírito quando a relação passa por um momento menos bom.
  • Contemos diariamente 3 coisas boas que elas fizeram, agradeçamos e celebremos:
    • Para ela se sentir recompensada e bem consigo própria.
    • Para reforçarmos as coisas boas (nomeadamente, encorajamo-las assim a repetir os comportamentos bons).
    • E para nós próprios nos sentirmos bem.
  • Quando encontrarmos beleza, reparemos nela e dêmo-nos um tempo para a sentir. Deixemo-nos preencher com essas sensações. E, depois, valorizemo-las e verbalizemo-las.

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Referimos numa aula anterior que a criança apresenta três diferenças claras em relação ao adulto. Falámos da incapacidade tanto de ela se defender, como de fugir. A terceira diferença em relação ao adulto consiste no seu estado de absoluta vulnerabilidade psicológica, face às suas necessidades de crescimento e de desenvolvimento.

Quais serão essas necessidades da criança? Atenção, estamos a falar de necessidades autênticas e não de desejos ou de vontades! Vamos ver.

Vamos começar pelas necessidades do ser humano, em geral. E, pondo-nos no lugar da criança, perguntemo-nos se estaremos a proporcionar-lhe a satisfação dessas necessidades.

Vamos falar da "Pirâmide de Maslow" ou "Hierarquia das Necessidades de Maslow". Tratou-se de uma proposta de Abraham Maslow, fundador da Psicologia Humanista. É muito usada em contexto empresarial e de marketing, para obter comportamentos ótimos dos trabalhadores e dos clientes (consumidores).

(imagem tirada daqui)

Primeiro, vêm as relacionadas com a sobrevivência (Fisiologia). Depois, vêm as de proteção contra perigos (Segurança). A seguir, as afetivas (Social). Seguidamente, as que se referem a ser-se valorizado pelos outros (Estima). Finalmente, as relativas à autovalorização autónoma através da realização dos seus potenciais (Realizações Pessoais).

São necessidades de todos os seres humanos (adultos e crianças!) que precisam de as verem satisfeitas para serem felizes e pessoas responsáveis e ativas na sociedade. Note-se que estas necessidades dão origem a iniciativas para as satisfazer, logo esta teoria é também uma teoria da motivação humana.

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Obrigado e uma ótima semana para tod@s!


quinta-feira, 2 de março de 2023

Panorama atual da infância no nosso país e alternativas aos maus-tratos na educação

 


Acabámos a aula passada referindo que devemos evitar sempre humilhar a criança. Não só porque é o que fazemos com os adultos, mas também porque a humilhação suscita na criança uma das mais destrutivas emoções negativas (juntamente com a raiva e com a inveja): a vergonha.

Recordo que estamos a tentar encontrar uma educação que não transforme crianças em adultos violentos. Por exemplo, que evite isto - Jornal de Notícias, 14.02.2022:

Em 2022, a PSP e a GNR receberam um total de 3530 queixas de violência no namoro, o que corresponde a uma média de cerca de dez situações reportadas por dia.”

Ou isto:

Ou ainda isto:


Há muitas causas para este panorama de crescente violência sobre as crianças, mas há uma que é ela própria uma violência sobre elas (Jornal de Notícias, 24.01.2023):

«Em Gaia existem 4492 crianças em situação de pobreza extrema, afirmou a ministra do Trabalho e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho (...) sublinhando que a nível nacional o número ascende às "170 mil".» 

Saliento que não é pobreza simplesmente, é «pobreza extrema».

Porque é que isto acontece? Uma das razões está no fosso entre ricos e pobres que leva ao aparecimento de inúmeros problemas sociais e de saúde pública, tal como demonstrado no quadro a seguir (no qual Portugal ocupa um lugar triste, para dizer o mínimo):
E este quadro é baseado em dados recolhidos antes do crash de 2008/9, antes da Troika e antes da pandemia. A situação não terá melhorado desde então.

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Porque é que isto é uma violência sobre as crianças (para além da situação estar cada vez pior)?

Primeiro, pelo sofrimento que isto lhes causa. Segundo, porque a criança apresenta desvantagens imensas em relação ao adulto (que abusa delas muitas vezes):

  • A absoluta incapacidade de se defender fisicamente.
  • A impossibilidade de fugir.

Se não pode defender-se nem fugir, ninguém se atreve a responsabilizar ou a culpar as crianças por esta situação. Então a conclusão necessária é de que a culpa é totalmente dos adultos… Isto não nos cria uma obrigação para com todas as crianças?

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Recordemos que, muitas vezes, a última esperança de salvação destas crianças está: 

  • em vizinhos atentos e solidários (que podem telefonar para o número indicado no início);
  • na vigilância e na proteção das escolas; 
  • e nos serviços do Estado (comissões de proteção de crianças e jovens - CPCJ -, polícias e tribunais).

O que mais podemos fazer?

  • Sensibilizar familiares, amigos e conhecidos, transmitindo-lhes os conhecimentos aqui adquiridos. A fim de que mais pessoas possam atualizar a sua representação da criança, da sua vulnerabilidade e dos seus direitos.
  • Simultaneamente, não aprovar, nem aceitar, nem tolerar situações de violência física e psicológica contra as crianças.
  • Finalmente, apoiar as organizações que defendem e tentam proteger as crianças.

O que podemos ainda fazer no dia-a-dia, todos os dias?

Elogiar TODOS (CRIANÇAS E ADULTOS) o mais possível e sempre que possível,

  • Ao elogiar os adultos estamos a alimentar um espírito mais benévolo (a alimentar o “lobo bom”); 
  • Ao elogiar as crianças à frente dos adultos, estamos a fazer-lhes ver os lados bons das crianças;
  • Ao elogiar as crianças, estamos a fazê-las felizes e a reforçar os seus bons comportamentos (crianças felizes portam-se bem - podem fazer asneiras, como os adultos aliás, mas genericamente portam-se bem).

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Que propostas tem a ciência para educar as crianças sem precisarmos de recorrer a maus-tratos? 

  • Mostrar compreensão, apoiar, e encorajar atitudes e comportamentos positivos e construtivos (mas que estejam ao alcance da criança). Em suma, valorizar, elogiar e encorajar os comportamentos positivos.
  • Conversar com a criança para saber o que a está verdadeiramente a incomodar; depois, ajudá-la a resolver o problema e a ultrapassá-lo.
  • Ignorar comportamentos negativos insignificantes.
  • Quando se trate de comportamentos mais graves, usar time-outs (mas explicando o seu motivo e tornando-o uma medida adotada tanto pela criança como pelo adulto, a fim de não aparecer aos olhos da criança como um castigo arbitrário). 
  • Também nos casos graves, deverá haver consequências, de preferência combinadas e que incluam se possível a reparação do mal feito (porque há limites que é inaceitável ver ultrapassados).

Note-se como estes princípios também se podem aplicar com total propriedade aos nossos relacionamentos com os adultos.

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Obrigado pela participação de tod@s. Uma ótima semana, com saúde e alegria!


Resumo da aula de 19-02-2026

  Link para o vídeo: Aula de 19-02-2026