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sábado, 29 de abril de 2023

Castigos corporais: mitos e crenças (fim)

 


Vamos continuar com o que, sobre o castigo corporal, muita gente acredita:

9. O castigo corporal ensina uma criança a respeitar os outros. (ensina a ter medo, sim; a ter respeito, não)

10. O castigo corporal deve ser usado para disciplinar uma criança de cada vez que ela se comporta mal.

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Há mais algumas crenças que não foram seleccionadas por este estudo e que acrescentarei às anteriores:

11. Os pais têm o dever de correção e, se for preciso bater, bate-se. (os pais têm o dever de correção, mas não têm o direito de cometer o crime de bater)

12. Os castigos corporais são sempre dados por amor e para segurança da criança. (não é verdade: o que a investigação demonstra é que os castigos corporais são aplicados porque os pais perderam a paciência)

13. As crianças esquecem com facilidade e recuperam bem de tudo o que de mal lhes façamos. (não é verdade: nem esquecem com facilidade, nem recuperam bem do mal que lhes fazem - aliás, se isto fosse verdadeiro, então bater para quê, se elas esquecem com facilidade?)

14. Uma última crença consiste em as pessoas que batem acreditarem que, tendo-se tornado boas pessoas, isso aconteceu por causa dos castigos corporais que receberam na sua vida. Não é verdade. Elas tornaram-se boas pessoas apesar dos castigos corporais. Na verdade, elas conseguiram superar muito do mal que os castigos corporais lhes trouxeram. Ou seja, o mérito de se terem tornado boas pessoas é muito mais delas do que dos seus violentos educadores.

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A encerrar este tema dos castigos corporais, aqui ficam alguns alertas do Instituto de Apoio à Criança:




📞 LINHA SOS CRIANÇA - 116 111

Uma equipa técnica especializada nos problemas que afetam as crianças e os jovens está deste lado para ouvir, acompanhar, ajudar, proteger e informar! 💙

Outros contactos disponíveis:

WhatsApp – 966 065 750 / 966 065 767 / 913 069 404

Chat online - www.iacrianca.pt

Email – soscrianca@iacrianca.pt


Linha SOS Criança Desaparecida - 116 000.

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Para terminar este capítulo sobre o Estabelecimento de Limites e de como o fazer, lembro que só nos detivemos nos castigos corporais. Infelizmente, na nossa sociedade, as crianças são sujeitas ainda a muitos outros tipos de violência. Como, por exemplo, abuso sexual, abuso laboral, negligência e violência psicológica (da qual a violência verbal é apenas uma das suas várias componentes).

A luta para que as crianças sejam tratadas e educadas com a mesma justiça e a mesma humanidade que os adultos exigem para si mesmos ainda vai muito no princípio.

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Uma ótima semana e obrigado pela participação de tod@s!

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Castigos corporais: mitos e crenças

 


Vamos fazer uma reflexão final sobre Castigos Corporais, no sentido de percebermos melhor as pessoas que os defendem e de sermos capazes de as convencer a mudar de opinião.

Sabemos que praticamente todos os adultos concordam publicamente com o respeito pelos Direitos da Criança. 

Mas, na prática, às ocultas de olhares estranhos, muitos adultos contradizem esse respeito com o seu comportamento violento em relação às crianças. Quantos serão?

Nos E.U.A.,

(…), an ongoing national survey from the University of Chicago reveals that support for the statement, “It is sometimes necessary to discipline a child with a good, hard spanking” was 83% in 1986, dropping to 72% in 1996 and 2006 and, most recently, remaining in the majority at 68% in 2016. (David Rettew, Parenting Made Complicated, Oxford University Press 2021, p.167/8)

Note-se que, quando as pessoas respondem a um inquérito, por vergonha, muita gente não diz o que pensa e muito menos o que faz, tal como nas sondagens que dão sempre menos intenções de voto aos políticos mais grosseiros e brutais.

No Brasil,

Dados da Sociedade Internacional de Prevenção ao Abuso e à Negligência na Infância (Sipani) de São Paulo revelam que, em média, 18 mil crianças são vítimas de violência doméstica por dia, no Brasil; e nos últimos meses de pandemia, esses números possivelmente aumentaram, porém não estão sendo contabilizados.

De acordo com o estudo "Será que uma palmada resolve", do Instituto de Apoio à Criança (IAC), realizado com base em inquéritos online a 1.943 pessoas voluntárias, 30% dos pais consideram aceitável usar castigos corporais em crianças, sobretudo quando desobedecem aos pais, são "malcriadas" ou não cumprem com as regras da família.

Ainda em Portugal, 5300 crianças e respetivos pais que participam no projeto Geração XXI - uma das maiores coortes de crianças da Europa - compõem a amostra deste estudo realizado pelo Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto. 75% dos menores com sete anos de idade reportaram ser vítimas de agressão psicológica e de castigo corporal com frequência e 10% revelaram maus-tratos físicos graves e muito graves.

Não há dúvida: em Portugal, os castigos corporais continuam a ser uma realidade! Apesar de serem puníveis por lei. Porém, a lei muitas vezes não é cumprida pelas pessoas, nem aplicada consistentemente pelos tribunais, como já vimos numa aula anterior. E pais, familiares e outros cuidadores continuam a bater.

Porque se continua a consentir o castigo corporal sobre as crianças?

(Note-se: consente-se apenas no seio da família, o que não se percebe – se pensam que bater é assim tão bom, porque não defendem, por exemplo, que os especialistas da educação e da psicologia também devem bater nelas?)

Para responder àquela pergunta, vamos usar o estudo aqui referido.

Primeiro, os investigadores consideram Castigo Corporal como uso da força física com a intenção de causar dor à criança, mas não lesões nem ferimentos, com o objetivo de corrigir ou controlar o comportamento da criança.

Assim, sobre o castigo corporal, muita gente acredita que:

  1. O castigo corporal usado para disciplinar uma criança é inofensivo.
  2. Usar do castigo corporal ocasionalmente para disciplinar uma criança não lhe causa danos.
  3. O uso do castigo corporal ensina responsabilidade à criança e ajuda a desenvolver o seu caráter.
  4. É irrealista pensar que os pais nunca devem usar o castigo corporal para disciplinar uma criança (não é, já que nos países onde existe há mais tempo legislação a proibir os castigos corporais são aqueles onde eles ocorrem menos frequentemente).
  5. O castigo corporal funciona melhor do que outros métodos de disciplina.
  6. O castigo corporal deve ser usado para disciplinar tanto meninos como meninas. 
  7. O castigo corporal é a única coisa que as crianças entendem.
  8. Sem o uso do castigo corporal para disciplinar as crianças, elas tornam-se mimadas e ficam sem regras.

Todas estas crenças são falsas, como foi demonstrado até à exaustão pela investigação científica. Em particular, a última (8) é tragicamente falsa!

Efetivamente, esta crença nasce de uma ligação de causa e consequência que, pura e simplesmente não existe. Dar mimo, isto é, amor em abundância, não tem nada a ver com ela ficar sem limites e regras. Aliás, um amor verdadeiro, que não seja apenas uma manifestação de um sentimentalismo barato, implica que se estabeleçam limites e regras ao que a criança pode fazer, a fim de garantir a sua segurança e o seu bem-estar, bem como os de todos os outros que convivam com ela.

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Ao longo da aula, foram referidas vários fatores que concorrem para haver pessoas que continuam a agredir com violência os seus filhos. Eis as contribuições dos presentes:

  • Maus tratos sofridos na infância
  • Cultura da época
  • Regiões com hábitos diferentes, em que algumas defendem mais os castigos corporais
  • Falta de informação e de conhecimento
  • Cansaço e outras pressões com origem no contexto onde as pessoas vivem o seu dia-a-dia (nomeadamente nos seus trabalhos)

Acrescentei ainda mais um fator relevante: o clima político e socioeconómico do país – onde há mais solidariedade social e menos violência do Estado, há menos agressões entre as pessoas em geral.

Note-se ainda que o ser humano é muito complexo e não encaixa em nenhuma teoria, pelo que aqui não se fala de causas, mas apenas de condições que facilitam o eclodir da violência. E que continuam a alimentar aquelas crenças.

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Continuaremos na próxima aula. Uma ótima semana para tod@s!


Resumo da aula de 19-02-2026

  Link para o vídeo: Aula de 19-02-2026